
Os dias do paraíso que vemos são os dias da terra. Uma terra-mãe que dá a vida e a morte e onde o amor acontece, ele que também dá vida e que também dá morte. No cinema de Terrence Malick a natureza tem um papel determinante e “Days of Heaven” (1978), sua segundo longa-metragem, não é excepção. O olhar fixa-se nas envolvências, admira-se com o meio. Não é por acaso que o filme é narrado por uma criança, que nos põe a par do seu espanto pela existência que vai conhecendo e desconhecendo um pouco mais todos os dias. Há sempre uma pureza nos cenários que Malick nos mostra, uma pureza sempre condenada. O filme segue o trajecto de um casal de amantes.
No início partem de Chicago para buscar trabalho sazonal numa quinta texana. Lá fazem-se passar por irmãos e o dono da terra, um jovem com os dias contados, deixa-se apaixonar por ela, acabando por a desposar. Mas o amante-irmão está sempre presente e os momentos de felicidade são efémeros. No final há morte mas até a morte é vida. É só uma outra partida. As personagens não têm assim tanto relevo enquanto indivíduos. O filme termina e já nem nos lembramos do nome que tinham. Há algo de religioso neste filme, e não é somente o título. E há algo que nos traz à memória de Murnau, nomeadamente o Murnau de “City Girl” (1930).
Mas há um olhar que é só de Malick, que se fascina com o belo natural como ninguém. A beleza da luz e das sombras num crepúsculo ou numa noite, os movimentos de um rio, o branco da neve, até os insectos praga. À bela música criada por Ennio Morricone juntam-se os sons da própria natureza. Tudo se une, o artificial que sempre existe no cinema e a evidência do natural. Juntos são uma nova dimensão, uma dimensão malickiana, um sopro do vento que faz agitar as searas e as águas, que sentimos real mesmo que seja só no ecrã. As imagens são versos que nos maravilham. Pois se existe poesia em forma de cinema ela é a obra de Terrence Malick.